OS QUATRO ELEMENTOS 2- FILHO DA TERRA- JOSY TORTARO

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O medo teria cor? Para mim, sim. Era verde e todas as suas nuances. Ao meu redor o verde
musgo cobria cada tronco de árvore. Sobre minha cabeça, o verde-bandeira das frondosas copas
formava um teto. Na rica fauna, outros tons sobressaíam e me assustavam. Verde lima, esmeralda,
grama, menta, turquesa, floresta.
As tentativas de me salvar não foram grande coisa. O que uma criança de dois anos faria?
Choraria, é claro. E chorei até minha garganta arder e meus olhos incharem. Mal podia abri-los. E
o verde a minha volta mudava de cor conforme o sol se movia no céu, sem que pudesse vê-lo.
Minhas pernas estavam afundadas no lamaçal. O rio, que devia correr ali perto, inundara
a planície. Ouvia suas correntezas, o motor dos barcos, pás impulsionando outros, quando - por
milagre, e durante um segundo - eu parava de chorar.
Além dos sons distantes, ouvia ruídos próximos. A mata estava viva. Movia-se com rapidez
sobre o chão seco, farfalhava as asas, balançava as folhas. De vez em quando, um uivo assustador
assoviava em meu ouvido. O vento jogava em meu rosto partes soltas da floresta, que se aderiam e
moldavam uma máscara verde e marrom.
De certa forma, quase me sentia fundido àquele lugar, sem nem mesmo saber se pertencia
a ele. Eu Chorava como se encarasse o mundo pela primeira vez. Como se renascesse. E, no
entanto, somente o verde, que decidi temer, me acolhia. A natureza era minha mãe nessa nova
vida. Da outra, nada foi tão marcante como aquele abandono nos braços da terra.
Exausto, sem forças para derramar mais nenhuma lágrima, soltei meus pés da lama,
procurei um refúgio sob uma árvore e usei suas grandes folhas como cobertor. A floresta estava
ainda mais densa. Apaguei no mesmo instante em que me deitei sobre as folhas e gravetos que
estralavam.
Acordei em um sobressalto, ouvindo passos. Era um som novo para mim em meu novo
mundo. E estava tão perto, que meu coração bombeou apressadamente enquanto me sentava em
minha cama improvisada. O sol havia nascido novamente e o verde mudou para tons mais claros e
brilhantes.
Não temia mais. Eu era o verde. Mas esses passos desconhecidos eram uma novidade.
Outros sons acompanhavam os passos. Galhos quebrados, folhas pisoteadas, a fuga de algum
animalzinho pela mata, um risinho agudo e pueril.
Antes que eu pudesse entender ou prever o que aconteceria, um feixe de luz cobriu uma
pequena criatura há apenas dois metros de onde eu estava. Sua pele azeitonada, seus cabelos
escuros compridos e lisos, seus olhos oblíquos e grandes, seu nariz saliente e sua boca carnuda e
larga não eram nada do que eu já tivesse visto na vida. Não que eu tivesse vivido muito.
O que mais me chamou a atenção era que a criança não vestia roupas. E sobre sua pele
marrom apenas barbantes amarelos e penas coloridas a adornavam. Desenhos escarlates cobriam
seu rosto. Ela sorriu para mim, um riso puro e inocente. Apontou seu dedinho minúsculo em minha
direção.
– Cari? - perguntou.

Um comentário:

  1. Olá, tudo bem? Se estiver fornecendo meus livros da saga Os Qu4tro Elementos em eBook para seus leitores, gostaria de pedir que retirasse do seu site, por gentileza. Não repasse os arquivos, por favor. Obrigada pela compreensão e consideração com meu trabalho.

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