2 de fevereiro de 2013

VAMPIRATAS 1-2-3 ## JUSTIN SOMPER

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DEMONIOS DO OCEANO

Quando o primeiro estrondo de trovão soou sobre a Baía Quarto Crescente, Grace
Tormenta abriu os olhos. Um clarão de relâmpago irrompeu atrás da cortina.
Tremendo, ela afastou as cobertas e foi até a janela do quarto, que havia se
destrancado e estava escancarada, batendo ao vendaval como uma asa de vidro.
Grace estendeu a mão para fechá-la. Foi preciso algum esforço e a chuva a
encharcou, mas conseguiu. Prendeu a janela mas deixou-a ligeiramente entreaberta —
não querendo isolar a tempestade por completo. Esta produzia uma música áspera
com muitos rufos de tambor e pratos de orquestra estourando. Seu coração disparava
de empolgação e de medo. A água da chuva era gelada no rosto, no pescoço e nos
braços. Fazia a pele pinicar.
Do outro lado do quarto, Connor ainda dormia — a boca escancarada, um braço
pendendo na lateral da cama. Como conseguia dormir com um barulho daqueles?
Talvez seu irmão gêmeo tivesse ficado exausto de jogar futebol a tarde inteira.
Do outro lado da janela do farol, a baía estava sem navios. Não era uma noite para
se velejar. O facho do farol varria a superfície do oceano, iluminando as ondas
alvoroçadas. Grace sorriu, pensando no pai lá em cima na sala da lâmpada, vigiando o
porto, mantendo todo mundo em segurança.
Outro raio estalou e se dividiu do lado de fora da janela. Cambaleando para trás,
Grace esbarrou na cama de Connor. De repente o rosto do irmão se franziu e em
seguida os olhos se abriram. Ele olhou para cima com uma mistura de confusão e
irritação. Ela espiou seus olhos verdes luminosos. Eram exatamente da mesma cor dos
dela — como se fosse uma esmeralda partida em duas. Os olhos do pai eram
castanhos, por isso Grace sempre achava que eles deviam ter puxado à mãe. Algumas
vezes, nos sonhos, uma mulher aparecia à porta do farol, sorrindo e olhando para
Grace com os mesmos olhos verdes e penetrantes.
— Ei, você está toda molhada!
Grace percebeu que estava pingando água de chuva em Connor.
— É uma tempestade. Venha olhar!…

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MARÉ DE TERROR

Crepúsculo. Uma baía deserta. As ondas se
estendem famintas para a areia, que muda de
tom, do branco para o mel, dourado e um âmbar
feroz à medida que o sol se cansa e mergulha
nas águas negras. As ondas famintas engolem
depressa a bola de luz.
Agora é um mundo de sombra sobre sombra.
Nenhum olhar humano pode discernir as
emendas entre terra e água ou entre água e céu.
Nenhum olhar humano pode identificar a
agitação e as batidas do oceano. Porque essa
não é a escuridão desbotada das cidades e
metrópoles. É a escuridão real — profunda,
intensa e feita de veludo negro.
Onde está a lua? É como se tivesse optado
por não sair essa noite, relutante em
testemunhar os acontecimentos das próximas

horas. Onde estão as estrelas? Também parecem
ter decidido manter uma discreta distância. Sem
lua. Sem estrelas. Numa noite assim alguém
pode ser perdoado por achar que o mundo está
no fim. E, para um de vocês, isso pode ser
verdade.
Porque as ondas escuras protegem um
segredo. Um homem — pelo menos algo que
parece um homem — surfando numa prancha.
Não é um passeio tranquilo. As ondas negras são
altas e ferozes, testando o surfista até os limites
da força e da resistência. Ele jamais perde o
equilíbrio, apesar das ondulações, apesar da falta
de luz para guiar o caminho. Seu corpo
musculoso se vira e se retorce, grudado à
prancha. Ele trava uma batalha pelo respeito
com as ondas que adoram zombar. E está se
dando bem.
Por fim as ondas parecem se cansar do
esporte e recompensam a determinação do
surfista levando-o para a parte rasa. Mesmo
assim ele se move com grande velocidade, a
prancha afiada como faca raspando a fina
película de água opalina.
Ele salta da prancha, os pés tocando o fundo
arenoso. A água faz uma última tentativa…

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CAPITÃO DE SANGUE

— Vai, Connor. Você consegue!
— Vai, meu chapa! Continua subindo!
Connor Tormenta fez uma careta. Suas
pernas pareciam ao mesmo tempo pesadas como
chumbo e incontroláveis como gelatina. Foi um
erro ter parado na metade da subida. Estava indo
tão bem até ali! Queria dominar esse medo. Estava
na hora. Já havia passado da hora. Mas o
medo estava arraigado nele, pesado e irremovível
como uma âncora presa sob uma pedra.
Queria olhar para baixo. Lutava para manter a
cabeça reta, sabendo que olhar para baixo era a
pior coisa que poderia fazer. Sentia os olhos
sendo puxados como ímãs na direção do convés,

muitos metros — metros demais! — lá embaixo. E

depois descendo pelo costado do Diablo e penetrando
até o fundo do oceano. Quando parava
para pensar nisso — e nunca deveria parar para
pensar nisso —, era uma queda e tanto.
— Não olhe para baixo! — A voz de Cate
velejou pelo ar, forte e segura. Se ao menos ele
pudesse ser tão confiante quanto a subcapitã
sempre parecia estar.
— Ande, garoto! —;…

coracaojoia

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