29 de setembro de 2012

A MEDIADORA 5

ASSOMBRADO

ASSOMBRADO

Névoa. É só o que consigo ver. Só névoa, do tipo que vem da baía toda
manhã, passando sobre o parapeito da janela do meu quarto e se derramando
no chão em gavinhas frias e lamentosas...
Mas aqui não há janelas, nem mesmo um chão. Estou num corredor ladeado
por portas. Não há teto, apenas estrelas frias piscando num céu preto como
nanquim. O corredor comprido feito de portas fechadas parece se estender
para sempre em todas as direções.
E agora estou correndo. Estou disparando pelo corredor, com a névoa
parecendo se grudar nas minhas pernas, as portas fechadas de cada lado se
transformando num borrão. Eu sei que não adianta abrir qualquer uma
daquelas portas. Não há nada atrás delas que possa me ajudar. Eu tenho de
sair desse corredor, mas não posso, porque ele simplesmente vai ficando cada
vez mais comprido, esticando-se na escuridão, ainda coberto por aquela
névoa branca e densa.
E de repente não estou sozinha na nevoa. Jesse está comigo, segurando minha
mão.
Não sei se é o calor de seus dedos ou a gentileza de seu sorriso que afasta o
temor, mas subitamente estou convencida de que tudo vai ficar bem.
Pelo menos até se tomar claro que Jesse não sabe o caminho melhor do que
eu. E agora nem mesmo o fato de minha mão estar na dele consegue suprimir
a sensação de pânico que borbulha por dentro de mim.
Mas espere. Alguém está vindo na nossa direção, uma figura alta andando
pela névoa. Meu coração que bate freneticamente - o único som que consigo
ouvir nesse lugar morto, com exceção de minha respiração - reduz um pouco
a velocidade. Ajuda. Ajuda por fim.
Só que quando a névoa se parte e eu reconheço o rosto da pessoa à nossa
frente, meu coração começa a bater mais alto do que nunca. Porque sei que
ele não vai nos ajudar. Sei que não vai fazer nada.
Além de rir.
E então estou sozinha de novo, só que desta vez o piso à minha frente sumiu.
As portas desaparecem, e estou cambaleando na borda de um abismo tão
fundo que não consigo ver o chão lá embaixo.
A névoa redemoinha em volta, derramando-se no abismo e aparentemente
querendo me levar junto. Estou balançando os braços para não cair, tentando
freneticamente agarrar alguma coisa, qualquer coisa.
Só que não há o que agarrar. Um segundo depois uma mão invisível dá um
único empurrão.

E eu caio.

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