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26 de outubro de 2014

OS QUATRO ELEMENTOS 4- UNIVERSO DE AGUA- JOSY TORTARO

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2011
Difícil traduzir o que via. Era obscuro, borrado e sem sentido até que uma cena se destacava e me
chocava com o horror que podia identificar nos flashes sequenciais, como quadros de filmes
animados passados em câmera lenta. Ao final, os acelerava mentalmente e em um segundo
compreendia sua essência.
Agora o cenário era cinza-escuro com flashes brancos que surgiam de quando em quando
além da cortina embaçada. Senti que se movia sem necessariamente mexer os pés. Quando parou, uma porta se abriu e correu descalça. Doía. Era mais escuro ali, somente uma luz próxima iluminava ao redor, um pouco menos nebuloso como se o que mais obstruía sua visão tivesse sido removido.
Havia um som alto e forte de água. Havia água por todos os lados. E desespero. Um grito
ecoou medonho. Um chamado que insistia, mas não recebia resposta. Água e o resto era silêncio.
Solidão. Abandono. Loucura. Sensações que me sufocavam enquanto assistia àquela cena forçada.
Insano? Água abundante. Pressão. Escuro que se movia lentamente. Para a esquerda.
Para a direita. Ir para cima? Não, para baixo e para frente. Luz e esperança. E água, muita água.
A luz crescente. Estava quase claro suficiente para ver. A água, o escuro e o fogo. Fogo sob a água?
Escuridão novamente.

OS QUATRO ELEMENTOS 3- ILHA DE AR- JOSY TORTARO

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Lembranças. Não quaisquer, mas as que doem mais. Aquele cenário branco embaixo, azul infinito
à frente e verde atrás traziam à tona recordações dolorosas para mim. Minha mente se agitou
convulsiva enquanto me mantinha paralisado, permitindo apenas que elas me assaltassem e, por
fim, me deixassem prosseguir.
Primeiro flash.
Tenho apenas um ano. Não posso enxergar direito. Protejo meus olhos com o braço fino
contra o reflexo do sol. É muito branco. Muito claro. Dói. Está muito quente. Meu suor e lágrimas
se misturam e sinto seu sabor salgado e amargo em minha língua. Picadas salpicam minha pele
exposta, ricocheteadas pelo vento. Um brilho intenso no branco ofusca minha visão. Tento pegá-lo
e descubro uma pedra azul-esverdeada. É tão linda.
Segundo flash.
O branco é gigantesco. Forçando a vista, só vejo o chão claro ao meu redor. Muito longe,
meus olhos divisam o azul. Uma linha sutil o separa em dois tons, um mais claro e outro
esverdeado. Gosto do azul, mas está tão distante e estou sozinho. Sou tão pequeno. Como poderei
alcançá-lo? A espuma branca corre em minha direção com leveza, me convidando. Lágrimas
continuam a verter de meus olhos. Por que estou só?
Terceiro flash.
Um homem se aproxima de mim e me pergunta se estou bem. Não consigo responder. Ele
é bom. Leva-me, me dá comida e água. Paro de chorar. Não estou mais sozinho. Ele promete que
nunca mais ficarei. Sinto-me feliz quando me leva para morar com ele. Uma casa muito grande.
Um quarto cheio de brinquedos para mim. Ele é meu pai agora. A mulher bonita não fica feliz
quando me vê, mas ele me ama e cuida de mim.
Quarto flash.
Vivi apenas treze anos ao lado de meu querido e amado pai. Deus o tirou de mim cedo.
Nunca mais conseguirei ser feliz de novo. O que vai ser de minha vida sem ele? Minha mãe não
me ama. Estou só outra vez. Isso não é justo! Meu pai havia prometido que isso não aconteceria de
novo. Ele descumpriu sua promessa. Não, ele estava velho e doente, precisava descansar.
Necessito entender e continuar vivendo como me ensinou.
Último flash.
Mamãe também não ficou feliz com a morte de papai. A gente não conversa há muito
tempo, mas hoje resolveu quebrar o silêncio. Teria sido melhor que nunca mais tivesse falado
comigo. Por que veio descontar toda sua raiva e tristeza em mim? Será que ela não vê que
também estou triste? Também o amava! Por que inventou agora que não sou filho deles? Por que
me mostrou o documento de adoção?
Respirei fundo ao término da sequência de lembranças amargas para me recompor. Por
fim, as recordações tinham o poder de me tornar mais forte para enfrentar a vida, as dificuldades e
as surpresas. Minha história não começou perfeita, mas tinha o controle sobre mim mesmo e
poderia conquistar um grande desfecho.
Meu momento solitário terminara.

OS QUATRO ELEMENTOS 2- FILHO DA TERRA- JOSY TORTARO

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O medo teria cor? Para mim, sim. Era verde e todas as suas nuances. Ao meu redor o verde
musgo cobria cada tronco de árvore. Sobre minha cabeça, o verde-bandeira das frondosas copas
formava um teto. Na rica fauna, outros tons sobressaíam e me assustavam. Verde lima, esmeralda,
grama, menta, turquesa, floresta.
As tentativas de me salvar não foram grande coisa. O que uma criança de dois anos faria?
Choraria, é claro. E chorei até minha garganta arder e meus olhos incharem. Mal podia abri-los. E
o verde a minha volta mudava de cor conforme o sol se movia no céu, sem que pudesse vê-lo.
Minhas pernas estavam afundadas no lamaçal. O rio, que devia correr ali perto, inundara
a planície. Ouvia suas correntezas, o motor dos barcos, pás impulsionando outros, quando - por
milagre, e durante um segundo - eu parava de chorar.
Além dos sons distantes, ouvia ruídos próximos. A mata estava viva. Movia-se com rapidez
sobre o chão seco, farfalhava as asas, balançava as folhas. De vez em quando, um uivo assustador
assoviava em meu ouvido. O vento jogava em meu rosto partes soltas da floresta, que se aderiam e
moldavam uma máscara verde e marrom.
De certa forma, quase me sentia fundido àquele lugar, sem nem mesmo saber se pertencia
a ele. Eu Chorava como se encarasse o mundo pela primeira vez. Como se renascesse. E, no
entanto, somente o verde, que decidi temer, me acolhia. A natureza era minha mãe nessa nova
vida. Da outra, nada foi tão marcante como aquele abandono nos braços da terra.
Exausto, sem forças para derramar mais nenhuma lágrima, soltei meus pés da lama,
procurei um refúgio sob uma árvore e usei suas grandes folhas como cobertor. A floresta estava
ainda mais densa. Apaguei no mesmo instante em que me deitei sobre as folhas e gravetos que
estralavam.
Acordei em um sobressalto, ouvindo passos. Era um som novo para mim em meu novo
mundo. E estava tão perto, que meu coração bombeou apressadamente enquanto me sentava em
minha cama improvisada. O sol havia nascido novamente e o verde mudou para tons mais claros e
brilhantes.
Não temia mais. Eu era o verde. Mas esses passos desconhecidos eram uma novidade.
Outros sons acompanhavam os passos. Galhos quebrados, folhas pisoteadas, a fuga de algum
animalzinho pela mata, um risinho agudo e pueril.
Antes que eu pudesse entender ou prever o que aconteceria, um feixe de luz cobriu uma
pequena criatura há apenas dois metros de onde eu estava. Sua pele azeitonada, seus cabelos
escuros compridos e lisos, seus olhos oblíquos e grandes, seu nariz saliente e sua boca carnuda e
larga não eram nada do que eu já tivesse visto na vida. Não que eu tivesse vivido muito.
O que mais me chamou a atenção era que a criança não vestia roupas. E sobre sua pele
marrom apenas barbantes amarelos e penas coloridas a adornavam. Desenhos escarlates cobriam
seu rosto. Ela sorriu para mim, um riso puro e inocente. Apontou seu dedinho minúsculo em minha
direção.
– Cari? - perguntou.

OS QUATRO ELEMENTOS 1- MARCADA PELO FOGO- JOSY TORTARO

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A escuridão me envolvia completamente. Mantinha os olhos bem abertos apesar de não enxergar
nada, e os ouvidos em alerta. O silêncio pairava no ar como uma teia invisível pronta para me
prender. Meu pequeno corpo tremia. Meu queixo batia ritmado e com força. Havia um barulho
baixo e constante enquanto meus dentinhos se chocavam. Minhas mãozinhas apertavam com força
minhas perninhas dobradas.
Sentia a respiração ofegante e o pulsar frenético de meu coração. Medo. Um medo
aterrador. Medo do desconhecido. Medo do que havia por trás das paredes da sala secreta do
castelo. Nunca entrara antes naquele lugar. O chão de mármore parecia uma tumba fria. Não
havia entrada de ar. Não havia janelas. Não havia portas. Apenas as paredes de pedra.
Não conseguia pensar muito bem. Não entendia o que estava acontecendo com os adultos.
Por que tinham me trancado ali? Não queria ficar sozinha. Não queria ficar no escuro. Fazia muito
tempo que eu estava naquela posição ao desistir de gritar por alguém. Minha garganta ardia em
consequência de horas de gritos em vão.
Ouvira o eco de meus próprios gritos em desespero. Chamara por minha mãe com uma
insistência desesperadora, mas ninguém me ouvira. Somente o eco me repetira irritantemente.
Depois disso chorei por mais algum tempo. Nesse momento, o espanto e a solidão secaram meus
olhos. Meus ouvidos apenas ficaram atentos para todos os sons ao meu redor. Não havia
absolutamente nada além de minha própria respiração.
De repente o silêncio foi interrompido por passos abafados ecoando do outro lado da
parede. Meus olhos se arregalaram ainda mais tentando prever o que aconteceria. As lágrimas
correram por minha face sem que eu emitisse nenhum som pela boca. Os passos se aproximavam
mais e mais. Toc toc toc. Uma constante apavorante. Parecia que o som acompanhava o ritmo
frenético de meu coraçãozinho.
No momento seguinte, os passos cessaram abruptamente paralisando com eles minha
respiração. O que viria a seguir? Não sabia quanto tempo havia ficado naquela posição presa
naquela sala. Não sentia dor nem fome nem sede. O medo me dominava completamente e a espera
era arrasadora, fria, quase um animal horrendo pronto para me matar.
Um som agudo de pedra sendo arrastada fez com que eu voltasse a respirar. Uma luz
intensa ofuscou dolorosamente meus olhos através da fresta aberta na parede. Em uma única
reação, eu gritei, com todas as forças de meus pulmões apertando fortemente os olhos fechados e
as mãos contra o corpo.
Um vulto de baixa estatura se aproximou apressado contra a luz e, tocando-me com
afeição, apenas disse denunciando sua voz infantil.
– Não tenha medo, Tamires.